REVISTA DE CINEMA ENTREVISTA JOÃO PIMENTEL

(entrevista de Gabriel Carneiro com João Baptista Pimentel Neto, novo presidente do CBC – Congresso Brasileiro de Cinema)

–  Quais os desafios a serem superados em sua gestão?

“Acredito que sejam os mesmos enfrentados nas gestões anteriores. Buscar encaminhar e concretizar as resoluções do CBC.

E para que isso ocorra buscar que as entidades associadas realmente participem do dia a dia do CBC. Que manifestem suas opiniões de forma franca. Que realizem o debate necessário à construção de consensos. Que efetivamente apóiem e se envolvam nas lutas coletivas. Que lembrem que é a soma e não a divisão que confere maior ou menor força ao CBC.

Por outro lado, acho que o desafio é dar conta da agenda legislativa, que se relaciona e afeta de modo importante todo o setor cultural e, em especial, o audiovisual. Precisamos ficar atentos e mobilizados. E novamente esta tem que ser uma tarefa coletiva. Não pode e não dá prá ser cumprida apenas por um presidente, uma diretoria e pelos conselhos.

Somos uma federação. O CBC está hoje presente em todos os estados e, portanto de certa forma esta agenda legislativa se replica nas Assembléias Legislativas e nas Câmaras Municipais. Então, como se vê é tarefa coletiva e o CBC pode de certa forma articular e organizar isso. Serei apenas um dos coordenadores disso.

Gosto muito das palavras: articulação, parceria, compartilhamento!”

– De que maneira o fato de ser um cineclubista histórico influenciará sua gestão?

“A eleição de um cineclubista para presidir o CBC é realmente um fato histórico. Como é histórico o fato de as entidades que participam, apoiaram e votaram nesta chapa entenderem que o cineclubismo é importante neste momento do cinema brasileiro. Afinal, somos nós cineclubistas que temos buscado levar a produção audiovisual brasileira para os 92% de brasileiros que não freqüentam os cinemas de shoppings centers e que portanto não tem acesso a produção nacional.

Por isso afirmo que à gestão será coletiva. Foi isso o que aprendi no movimento cineclubista. Como também foi na militância cineclubista que aprendi a gostar e a dar a devida importância ao cinema e ao audiovisual brasileiro. E ao público brasileiro.

E daí, como cineclubista, apenas continuo dizendo que FILMES SÃO FEITOS PARA SEREM VISTOS e que precisamos fazer com que o povo brasileiro tenha acesso ao audiovisual brasileiro. E que essa é a principal luta. Quanto maior o número de brasileiros com acesso ao audiovisual brasileiro, mais forte ficará o nosso audiovisual. Isso me parece que hoje é consenso. Os problemas estão na infra estrutura, na distribuição e na exibição. E não podemos deixar de ficar atentos aos problemas que ainda resistem no setor da produção, principalmente de falta de recursos, da infernal burocracia, enfim, das mazelas que nos afligem a todos. Problemas que são de conhecimento de todo o setor e que tem que ser resolvidos.

É o que penso como cineclubista e o que estou propondo as entidades associadas. O norte será dado pelas entidades. “Pelos consensos que conseguirem construir.”

– Você acredita na mudança de paradigmas ao votarem num cineclubista para presidente de uma das mais importantes entidades audiovisuais do país?

“Acho que falar em mudança de paradigmas é muito forte. Mas acredito na tomada de consciência das entidades no sentido de união e reconhecimento de que o Brasil é um país imenso e diverso. E que o CBC tem que dar conta disso. Não é mero acaso que a nova diretoria conte com a participação de várias entidades representativas e de companheir@s espalhados por todo o Brasil. Acredito esta ser a maior prova de que o país está se conectando de norte a sul.

O CBC foi adentrando o Brasil de forma gradativa. Desde a sua retomada, ele teve na Presidência, o “carioca”Gustavo Dahl, depois, a “paulista” Assumpção Hernandez, com Geraldo Moraes contemplou os “gaúchos”, “candangos”, o centro oeste. Com Paulo Boccato, tivemos uma animador na presidência. Com Paulo Ruffino, um homem de TV. Com Jorge Moreno, sentimos os ares das alterosas e lembro que Rosemberg Cariry foi o primeiro presidente do CBC vindo do nordeste. E isso à época também foi um fato histórico. E ele fez uma das melhores gestões do CBC. Generosa. Pacificadora. Democrática. Franca e aberta. A favor do coletivo e do audiovisual brasileiro. Tenho orgulho de ter participado disso. Quero dar continuidade a isso.

Tivemos portanto presidentes das mais diversas origens e perfis. E cada um ofereceu sua contribuição à história do CBC. Espero estar à altura e oferecer também a minha contribuição.”

– Em que medida, haverá uma continuidade das gestões anteriores, em especial a última?

“Bem, o nome da Chapa foi Continuidade e Compromisso com o Audiovisual Brasileiro. E praticamente todos os membros da Diretoria e dos Conselhos da gestão anterior continuam participando. Portanto, será uma gestão de continuidade.”

– O que se pode aprender com o 8º CBC e que será levado em conta na nova gestão?

“Reafirmo que a nova gestão do CBC terá por norte dois documentos: as resoluções do 8º CBC e a Carta dos Realizadores Brasileiros. São as diretrizes das ações que devemos empreender. Manual de vôo. Lembrando sempre a todos que uma andorinha só não faz verão. E portanto só celebraremos conquistas se nos empenharmos coletivamente na luta. O resultado do trabalho dependerá do que cada uma das entidades associadas ajudar a construir.”

– Qual encaminhamento pretende dar ao CBC?

“O de continuidade na busca de construção de um coletivo forte. Não dá prá fazer um CBC forte sem a participação e envolvimento efetivo das entidades associadas. Volto a dizer é a soma e não a divisão que interessa ao CBC.

Então vamos continuar buscando construir consensos. Articular parcerias. Construir pontes com o poder legislativo e com o executivo.”

– Quais as principais reivindicações?

“Todas. Pelo menos aquelas que estão nas Resoluções do 8 CBC e na Carta dos Realizadores Brasileiros.

Todas elas são importantes e frutos de consensos. Defendemos todas. Sabemos que o setor é complexo e que cada atividade necessita de atenção e soluções especiais para cada um dos problemas. E valorizaremos isso dando igual atenção e nos colocando a disposição de todas.

E também sabemos que de certa forma todas estão contempladas pela agenda legislativa que se coloca pela frente. Que precisamos ficar atentos e mobilizados aos interesses da cultura e do audiovisual brasileiro.

PLC 116, PROCULTURA, VALE CULTURA, PEC 150. DIREITO AUTORAL. LEI DE DIRETRIZES ORÇAMENTÁRIAS. A lista é longa e posso ter esquecido algumas.

Vamos também fortalecer e apoiar a idéia da implantação dos Fundos Setoriais Regionais utilizando recursos dos Fundos Constitucionais. Uma idéia lançada pelo Rosemberg e que a cada dia ganha força.

Mas para enfrentar estes desafios precisamos de todos.”

– Que postura manterá frente à gestão da ministra da Cultura Ana de Hollanda?

“Estou certo que a nova Diretoria do CBC manterá uma postura republicana e respeitosa em relação ao Ministro (a) da Cultura. Seja ele quem for. A relação não pode se basear em nomes ou se gostamos mais ou menos do estilo de quem está Ministro.

A relação e o diálogo deve se pautar sobre os temas de interesse do audiovisual e da cultura.

Não nos envolveremos em manifestos nem pró, nem contra. Não cabe esse papel ao CBC, até porque sobre esse tema não temos consenso interno.

Por outro lado, a presença da Secretária do Audiovisual, Ana Paula Santana e dos diretores da ANCINE, Mario Diamante e Glauber Piva, na Assembléia do CBC, em Atibaia, demonstram a vontade da atual gestão do MINC em construir o diálogo com o CBC e com todas as entidades associadas.”

– Como sente que será o diálogo com as diversas frentes do audiovisual, como a SAV e a Ancine?

“Disse na resposta anterior que a presença de dirigentes da SAV e da ANCINE aponta para o diálogo.

Ele está estabelecido. Não só com o CBC, mas também com as entidades associadas. Existem muitos temas específicos que devem ser dialogados entre a SAV e a ANCINE, diretamente com as entidades associadas, apoiadas pelo CBC.

O CBC não pode exercer este papel. Tem que cuidar dos interesses maiores. De todos. Tem que lutar pela ampliação dos recursos e não de como eles serão depois divididos. É assim que entendo o papel do CBC. E acho que sobre estes temas maiores, do interesse de todos – inclusive dos gestores governamentais – que o CBC deve concentrar seus esforços contando com um efetivo apoio e participação das entidades associadas.

A nova diretoria do CBC quer somar! “Quer ir a busca de novas conquistas e de preservar todas aquelas alcançadas nas gestões anteriores.”

 

João Baptista Pimentel Neto
Presidente do CBC – Congresso Brasileiro de Cinema

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