REVISTA DE CINEMA ENTREVISTA ROSEMBERG CARIRY

(entrevista de Gabriel Carneiro com Rosemberg Cariry)

Como foi a experiência de estar à frente do CBC, como presidente?

Foi uma experiência marcante, por lidar com uma complexidade muito grande de visões e de interesses que representam todos os diversos elos da cadeia produtiva do audiovisual brasileiro e, sobretudo, por coordenar ações políticas em todo o território nacional. O CBC tem uma grande capilaridade, e as entidades filiadas estão presentes em todos os estados brasileiros. O CBC é uma instituição muito viva, inquieta, propositiva, aguerrida. Guardarei boas recordações dos encontros, das lutas e das bandeiras que erguemos em defesa do audiovisual independente. Todo este processo culminou com o a realização do 8º Congresso Brasileiro de Cinema e Audiovisual, em Porto Alegre, em 2010.

As resoluções do 8º CBC são muito importantes e apontam caminhos transformadores para o audiovisual no Brasil, apontam para um projeto audiovisual para a nação, em sua diversidade e complexidade.

Quais, você diria, foram suas principais conquistas no cargo?

Estivemos presentes em muitas frentes de luta. Abrimos um produtivo diálogo com o Ministério da Cultura (à época da gestão de Juca Ferreira) e, por meio das suas secretarias e agências especiais, notadamente com a SAV e Ancine, e conseguimos pactuar com a nova proposta da Lei Rouanet, assegurando recursos novos para o audiovisual, notadamente para o setor do chamado cinema cultural. A criação de um subfundo para as atividades não comerciais do cinema brasileiro, incluindo neste guarda-chuva o cinema experimental e autoral, a difusão, a preservação e a pesquisa. Repactuamos, ainda, com a Secretaria de Políticas Culturais, a nova Lei do Direito Autoral, que traz conquistas importantes para a cultura do povo brasileiro. Demos sugestões no aperfeiçoamento do Fundo Setorial do Audiovisual, em parte acatadas. Integramos a equipe que estuda a desburocratização da agência e temos nos posicionado de forma objetiva e firme nos muitos assuntos que nos deram tranquilidade de ou que nos inquietaram. O enquadramento da lei do Simples, reivindicação das pequenas e médias empresas produtoras do audiovisual e dos trabalhadores da cultura, foi também uma vitória significativa e só possível graças à parceria com as entidades organizadas de outras áreas artísticas, destacando-se entre estes parceiros o pessoal de teatro. No Congresso, organizamos constantes caravanas e visitações a deputados e senadores.

Em diálogo constante com a Câmara Federal e com outras entidades representativas da produção e difusão audiovisual, ajudamos na aprovação do PL 29, que traz importantes conquistas para o audiovisual brasileiro, notadamente as quotas para as produções brasileiras nos canais de TV a Cabo e por assinatura, o que dará um grande impulso à economia e à diversidade cultural brasileira, oferecendo, além de emprego e renda, a liberdade de escolhermos o que queremos ver. Uma vitória de todos. Uma vitória do diálogo, onde prevaleceu o bom senso. Agora o projeto encontra-se para ser votado no Senado com o nome de PLS 116. Roger Madruga é nosso “embaixador” na Câmara e no Senado.

Estendemos a presença do CBC em todo o território nacional, inclusive no Norte e Nordeste, regiões muitas vezes marginalizadas nos processos políticos do audiovisual brasileiro, e conseguimos inserir o CBC nesse amplo painel de discussões e na cena ibero-latinoamericana. Participamos do Encontro Internacional da Coalização da Diversidade Cultural e do II Encontro de documentaristas do Século XXI – América Latina e Caribe. Estreitamos laços de cooperação com alguns países, notadamente por meio da ação do Conselho Nacional de Cineclubes e do Fórum dos Festivais.

Recebemos o CBC com 52 entidades e estamos entregando a instituição com 82 entidades filiadas. São associações de produtores, de realizadores, de cineclubistas, de agências publicitárias, de documentaristas, de filmes indígenas e quilombolas, de jogos eletrÃ?nicos, de TVs comunitárias, de ensino universitário, de sindicatos de técnicos, de longa-metragistas, de vídeo-arte etc, etc. O CBC reúne quase toda a riqueza e diversidade audiovisual brasileira. Ainda muito importante foi conseguirmos restaurar o prestígio político da entidade e hoje temos representantes do CBC no Conselho Superior de Cinema, no conselho da SAV-MinC, na Comissão de Educação e Cultura da Câmera etc. Hoje a entidade se faz ouvir e defende com vigor as reivindicações desses amplos setores do audiovisual independente brasileiro.

E o que considera que ainda precisa ser melhorado e aperfeiçoado em futuras gestões?

Acho que deva ser ampliada esta aliança com os setores mais vivos e aguerridos do audiovisual brasileiro, sempre em perspectiva mais ampla e levantando a bandeira da diversidade cultural. O “velho cinema”, que hoje está empoderado, aliado com as majors e com os interesses hegemônicos, não sabe o que está acontecendo neste país ou faz de conta que não sabe. A verdade é que este país está vivendo uma grande transformação. A produção de filmes nas regiões é uma realidade (hoje as regiões produzem mais filmes do que o Sudeste, embora 90% de todos os recursos fiquem no Sudeste, na mãos de poucos produtores, enquanto os cinemas independentes das diversas regiões e mesmo do Sudeste passam por duras provações). A renovação do nosso cinema está vindo das beiradas, das regiões, apesar de toda a falta de apoio.

Qual encaminhamento você buscou dar nesses dois anos?

Lutamos muito pelos novos arranjos produtivos/criativos e pelos Polos de Desenvolvimento Audiovisual Sustentável das regiões brasileiras. Sobretudo naquelas que têm fundos nacionais de desenvolvimento, assegurados pela Constituição. Procurei o diálogo com os diversos setores, mas a concentração de poderes e recursos continua cada vez mais insustentável, sem nenhum respeito pelo pacto federativo. Só agora o Conselho Superior de Cinema incluiu esta demanda nacional nas suas diretrizes para o Plano Nacional de Desenvolvimento Audiovisual e a ANCINE busca também estabelecer criação de FUNCINES e pólos de desenvolvimento regionais. Tudo ainda como ideia, mas existe um reconhecimento que antes não existia. Hoje novamente se fala em pacto federativo.

Quanto aos direitos autorais, como você vê o posicionamento da nova Ministra da Cultura?

Quase nunca ou muito pouco se fala em biopirataria. A verdade é que, quando o Ministro da Indústria e Comércio do EUA aqui esteve e fez uma visita ao ministério da Cultura, foi para pedir que se colocasse o aparelho armado do Estado para defender seus interesses, os interesses da indústria de entretenimento norte-americana que se equivale à indústria de guerra. Ele não veio aqui para falar de biopirataria, afinal o abismo entre os países ricos e os pobres cresce cada vez mais com as chamadas patentes de propriedade intelectual, a partir dos registros, feitos com isolamento de princípios ativos e genéticos da nossa flora e fauna, pelos grandes complexos industriais farmacêuticos e químicos de países do chamado primeiro mundo. Daqui a pouco, teremos que pagar royalties pelo uso do maracujá (como sonífero) ou do principio ativo da janaguba (no tratamento do câncer). Todos os saberes da medicina popular (patrmônio comum da humanidade) estão sendo saqueados. O que dizer das sementes transgênicas e da hegemonia de algumas empresas que as controlam. E, quando todas as sementes tiverem propriedades intelectuais registradas e seus royalties cobrados com o poder da força de da chamada “legalidade” do Estado? Não é do capitalismo a eficiência do lucro, independente da ética? O lucro leva em conta o sofrimento humano ou os milhões de mortes que pode causar? Isso a que estamos assistindo é um crime de lesa humanidade. E tudo isto se confunde com o “bom mocismo” de defesa dos “direitos autorais”. Com certeza esta defesa dos “direitos autorais” não é a defesa dos direitos autorais de Nelson Sargento, de dona Odete Lara, de Dona Zabé da Loca ou de Dona Tetê do Caculiá. O buraco sempre foi mais embaixo. Nas artes, a defesa dos direitos autorais não pode ser confundida com a defesa do lucro e do saque realizados pelas empresas de entretenimento que espoliam o autor e amesquinham a arte, e nem com instituições de
arrecadação que promovem o saque e as grandes roubalheiras em detrimento do autor. Em contraposição a esta barbárie empresarial pós-moderna, existe o tratado da Diversidade Cultural da UNESCO (assinado por todos os países do mundo, com exceção dos Estados Unidos e de Israel), existe a Constituição brasileira que assegura, como direito, o acesso do cidadão à cultura. Existe também um código de direito do público. O projeto de reforma do direito autoral foi amplamente discutido e acordado com a sociedade brasileira. Já estava na Casa Civil e ia ser enviado para o Congresso, onde se travariam ainda muitos debates. Grupos poderosos o retiram da Casa Civil e o processo irá novamente se arrastar por muitos anos.

O que você espera da nova diretoria?

Acredito muito na nova diretoria. O Pimentel é um cineclubista e um militante da cultura, de esquerda. Pela primeira vez um cineclubista fica à frente de uma das mais importantes instituições civis do audiovisual independente brasileiro. Eu gosto desta mudança de paradigmas. Temos que acordar, o mundo está mudando muito rápido. Novas forças estão surgindo. A guerra que se trava hoje não é somente com aviões e tanques, mas também com os satélites e as TV de sinais abertos e fechados, que fazem maior estrago. Contra este estado de coisas, há no Brasil um clima de rebelião cultural. Gosto destes “levantes” populares. Fazer “cinema” não é mais uma coisa de classe média alta e branca do Sudeste. Hoje quem faz cinema é branco, é negro, é índio, é mestiço, é sarará, é punk da periferia, em todas as regiões do país. Estas pessoas entendem que também são brasileiros e querem também ter acesso aos fomentos e aos investimentos que são realizados com o dinheiro do povo brasileiro. Querem a reforma agrária nos satélites, querem ocupar as infovias. Vai ser travada uma grande e importante luta.

Pretende se candidatar a algum outro cargo nesta próxima eleição, ou nas demais por vir?

Não quis ser reconduzido à presidência do CBC. Irei pouco a pouco saindo de todas as entidades as quais pertenço para dar lugar às novas lideranças que estão chegando. Vou escrever e realizar filmes que serão produzidos como atos políticos: filmes sujos, subterrâneos, subversivos e heréticos. Hoje, quem determina o público do cinema, nos guetos dos shoppings Center, é a classe média alta e existe entre os meus filmes e esta classe média conservadora uma incompatibilidade de afeições, gostos e visões do mundo. Quero que meus filmes sejam vistos nos cineclubes, nas praças públicas, nas associações de bairros e favelas. Sejam vistos pelas populações sertanejas, pelos índios, pelos quilombolas, pelas periferias urbanas. Agora mesmo estou liberando todos os meus filmes (dez longas-metragens e vários curtas) para que possam ser exibidos pelo Movimento Sem Terra, em todas as ocupações de latifúndios, começando pelo interior do Ceará. Também vou escrever livros sobre as culturas populares, de poesia, de reflexões antropológicas e sociológicas sobre a barbárie contemporânea. Estou concluindo um livro e um documentário sobre Cego Aderaldo, o maior cantador do Brasil. Talvez volte a fazer jornalismo. Quero ir a Faixa de Gaza fazer um documentário. Também sou jornalista, sindicalizado. Enfim, sinto-me livre para expressar o que penso sem o limite de nenhum partido ou instituição, nestes tempos líquidos, como Zygmunt Bauman bem conceituou a sociedade contemporânea.

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